Quem será?
Através dos óculos escuros, percebo uma forte energia
surgindo no ar. Dentro de mim, o sangue irrigando meu coração que lateja, bate
forte, quase dói.
Estranho, devo estar ficando louca. A razão me diz: Continue
seu caminho que já vai passar. Obedeço. Mas outra vez, lá estão aqueles óculos
escuros em meu caminho. O sol ofuscando sua visão, mesmo sendo escuros os
óculos , os olhos recebem a luz, ou talvez emanem a luz. O que eu sinto são
fortes batidas, mais fortes que antes, mais latejantes, dói.
Novamente a razão me diz: Siga!
Dessa vez escuto, mas não tenho a mínima vontade de obedecer.
Meu rosto já se transformou e meu sorriso encheu todos os espaços antes
encobertos por silêncios.
Sem me desligar desta surpreendente sensação sento-me a
aguardar algum transporte que me leve de volta a realidade, pois neste momento
tudo parece um sonho.
“Vai pra cidade? Quer uma carona?”
O sonho continua. Um turbilhão de emoções em uma fração de
segundos. Não vá! Diz a razão.
Sim! Diz meu coração que neste momento parece ter o dobro do
tamanho.
As mãos trêmulas, as pernas bambas, os olhos presos naqueles
óculos escuros voltados em minha direção.
Sua voz ainda fala em minha cabeça, seu perfume ainda
penetra meus sentidos, suas mãos ainda povoam minhas lembranças.
Durante a conversa descontraída, só consigo tentar imaginar
quem é você. Como posso sentir tudo isso por um completo estanho!
Neste momento, não penso em amizade, em solidariedade ou em
qualquer outra forma de me relacionar com você, pois minha vontade de te beijar
é gritante.
Chegamos. Nem vi por onde viemos. Só sei que chegamos.
Nossas mãos se tocam em uma falsidade que até me envergonho. Não é isso que eu
quero, não quero te cumprimentar com um aperto de mãos. Quero te abraçar, sentir
esse perfume mais de perto, sentir o calor da sua pele na minha, sentir o seu
toque. Meus olhos se dirigem para sua boca enquanto minha mão suada aperta a
sua numa despedida hipócrita.
Saio. Me maldizendo por saber que nunca mais te verei. Como
pude sair assim? Porque não pedi pra ir
mais a frente, inventei uma desculpa pra não te deixar ir embora!
Meu coração que agora tem o triplo do tamanho me cobra
furioso por uma resposta. Minha razão se calou, um silêncio mortal.
Neste diálogo interior, nem percebo um carro se aproximando
e lá de dentro uma mão estendida me oferece algo. Seu cartão! Telefone, e-mail,
nome!
Meu Deus! Ainda bem que ele consegue pensar, porque eu já
não sei nem respirar mais. Não posso dizer nada, porque se abrir minha boca o
coração que agora tem o quádruplo do tamanho voa pela boca. A dor se estende
pelo meu estômago, indo até mais embaixo como uma facada certeira na região
mais íntima do meu ser.
Vai existir um amanhã!
Hoje, faz uma semana que tudo aconteceu e ainda consigo
reviver cada minuto.
